4# ECONOMIA 18.12.13

     4#1 OPERAES SOB SUSPEITA
     4#2 MAIS VANTAJOSO QUE O PR-SAL
     4#3 AGORA FALTA O MAIS DIFCIL

4#1 OPERAES SOB SUSPEITA
Dias antes de anunciar que no poria mais dinheiro na OGX, Eike vendeu milhes de aes da petroleira. Agora, est na mira da Justia e da CVM.

     Acostumado a figurar nas listas dos homens mais ricos do mundo, o empresrio Eike Barista comeou a frequentar na semana passada outro tipo de compndio, bem menos glamouroso. A revista Forbes, a mesma que j o alou ao rol dos bilionrios, o inclui agora entre os maiores fracassos de 2013. A crise de Eike, no entanto, no  mais s de desprestgio ou de ordem financeira  ela comeou a se converter tambm em purgatrio judicial. A Comisso de Valores Mobilirios (CVM), xerife do mercado, iniciou uma devassa nas operaes das empresas X e tem na mira uma transao mais do que suspeita: Eike concluiu a venda de um lote de 177 milhes de aes da OGX apenas cinco dias antes de anunciar que no honraria o compromisso de injetar 1 bilho de dlares na companhia caso ela enfrentasse dificuldades. Ofertou as aes entre 28 de agosto e 4 de setembro, embolsando 111 milhes de reais. Quando finalmente anunciou que quebraria sua promessa, deu-se o previsto: o valor dos papis despencou quase  metade, sepultando a derradeira esperana dos investidores em sua recuperao  alguns deles, inclusive, agora o processam na Justia. 
     Especialistas ouvidos por VEJA afirmam que a manobra de Eike na bolsa configura uso de informao privilegiada, ou insider trading, crime passvel de priso de um a cinco anos e at de expulso do mercado financeiro. "Ele se beneficiou de uma informao que os outros acionistas desconheciam e sobre a qual mais ningum tinha controle. So indcios muito fortes de m conduta", afirma o advogado Fbio Galvo, ex-superintendente da CVM. Com a transao, Eike no apenas feriu um princpio fundamental do mercado, que se finca sobre o pilar da igualdade de condies para os investidores, como desobedeceu a uma determinao interna da prpria OGX. Em 30 de julho, a diretoria enviou um e-mail coletivo proibindo que funcionrios, conselheiros e at seus familiares negociassem aes. A duas semanas de tornar pblico um novo balano, a empresa atravessava o perodo de blackout. A restrio viria a ser reforada em outro comunicado, de 14 de agosto  dessa vez em razo de uma negociao com credores que teria impacto decisivo. 
     Bem antes de vender seu vultoso lote de aes, Eike j dava sinais de que no depositaria na OGX o prometido 1 bilho. Pressionado pelos executivos da petroleira, ele alegava que a promessa se baseara em projees falaciosas e que agora o cenrio era outro. O recuo levou os conselheiros Pedro Malan, Ellen Gracie e Rodolpho Tourinho a renunciar a seus cargos no fim de junho. A tenso chegou ao pice no incio de setembro, com a OGX j em situao pr-falimentar. No dia 6, a diretoria exigiu que Eike colocasse pelo menos 100 milhes de dlares no caixa, em vo. Trs dias depois ele comunicou oficialmente que a fonte secara. quela altura, j se havia desfeito de uma parcela de suas aes. 
     No foi a primeira vez que Eike se antecipou a uma notcia ruim para reaver algum dinheiro no atoleiro da crise. Entre maio e junho deste ano, ele havia vendido uma enxurrada de aes  da OGX. Tudo parecia normal, no fosse por um detalhe no mnimo curioso: a operao ocorreu dezoito dias antes do fatdico anncio de que a petroleira suspenderia a produo em seu nico campo em atividade, o Tubaro Azul. Nas semanas que antecederam a notcia, como mostrou o jornal O Globo, Eike ainda propagandeava o potencial de sua empresa no Twitter  isso ao mesmo tempo em que se desfazia das aes. Os assessores do empresrio dizem que, em ambos os casos, o objetivo era conseguir dinheiro para pagar os credores que o pressionavam. 
     Nos tempos ureos, o imprio de Eike Batista se transformou em smbolo- mor da pujana do mercado financeiro no Brasil. Agora, diante da descoberta de que a OGX se sustentava em projees excessivamente otimistas, seu declnio pode expor o prprio mercado. Os investidores comeam a se indagar onde estava afinal a CVM  a quem cabe zelar pelo cumprimento das regras  enquanto tudo acontecia. O Ministrio Pblico acaba de abrir uma investigao para apurar se houve negligncia na instituio, que afirma no ter deixado escapar nada. Advogados ligados ao grupo X estimam que, mesmo que consiga equacionar o lado financeiro, Eike ter no horizonte pelo menos uma dcada de enroscos com a Justia. Na semana passada, o imponente edifcio Serrador, ex-sede da EBX, era o retrato do desnimo, com suas mesas vazias e vidros quebrados. A maioria j se mudou para o velho edifcio do Flamengo onde tudo comeou. Eike vai para l, mas s depois que trocarem o carpete de sua antiga sala. 


4#2 MAIS VANTAJOSO QUE O PR-SAL
O fim do monoplio estatal no Mxico cria uma opo de menor risco para investimentos em explorao de petrleo.

     Das plataformas martimas aos postos de gasolina, toda a indstria petrolfera mexicana  controlada pela estatal Petrleos Mexicanos (Pemex) desde que a empresa foi nacionalizada, em 1938. Sem nenhuma concorrncia, o sistema mexicano era considerado at mais restritivo e atrasado que o da fechada Coreia do Norte, que h pelo menos trs dcadas j conta com a participao de empresas estrangeiras em suas atividades. Com investimentos insuficientes, a produo mexicana espelhou a da Venezuela e minguou de 3,4 milhes de barris dirios em 2004 para 2,5 milhes em 2012. Na semana passada, foi dado um passo para acabar com a ineficincia no setor e transformar o Mxico em um concorrente do Brasil na busca por investimentos das petrolferas mundiais. Na quarta-feira 11, o Senado mexicano aprovou, com 95 votos a favor e 28 contra, um projeto de lei para abrir o setor de energia a investimentos de empresas privadas nacionais e estrangeiras. Dois dias depois, a Cmara dos Deputados referendou o texto. At 2025, a reforma tem potencial para elevar a produo de petrleo para 4 milhes de barris dirios e alar o pas do nono para o quinto lugar entre os maiores do mundo no setor. 
     A extrao de petrleo  mais barata no Mxico do que no Brasil por motivos geolgicos. "Perfurar em guas profundas por l custa em torno de 25 a 40 dlares por barril, enquanto no Brasil esse valor est entre 45 e 55 dlares", diz o economista Marco Oviedo, do banco ingls Barclays. O Mxico se beneficia, ainda, da vizinhana com os Estados Unidos, o maior consumidor mundial. Como os dois pases contam com boa infraestratura, o custo logstico  reduzido. O modelo mexicano tambm ser mais atraente para os investidores, enquanto o Brasil vem criando regras mais restritivas. Em 2010, a mudana no marco regulatrio aumentou o intervencionismo do governo brasileiro ao obrigar a Petrobras a ter uma participao mnima de 30% na operao de qualquer campo do petrleo do pr-sal, situado a 7000 metros da superfcie do mar. "Essa mudana de certa forma foi a reinstalao do monoplio. Se o Brasil continuar com esse ambiente de negcios, a tendncia  perder capital para o Mxico", explica o consultor Adriano Pires, do Centro Brasileiro de Infraestrutura. Em outubro, no maior leilo do pr-sal brasileiro, o do campo de Libra, apenas um consrcio apareceu para dar seu lance. Uma decepo e tanto para Braslia, que esperava a participao de quarenta empresas. Os prximos leiles devem ocorrer a partir de 2015. 
     A reforma mexicana  ainda mais ambiciosa do que a proposta pelo presidente Enrique Pea Nieto, que assumiu o posto no ano passado. O texto prev diversos modelos de contrato, incluindo diviso de lucros entre as empresas privadas e a estatal, partilha de produo e concesso de licenas de explorao. Apesar de as reservas comprovadas de petrleo do Mxico serem um pouco menores que as do Brasil, 12 bilhes e 16 bilhes de barris, respectivamente, estima-se que haja muito mais a ser descoberto. O campo ainda inexplorado de Chicontepec, no Estado de Veracruz, por exemplo, pode ter at 139 bilhes de barris. Com essa concorrncia, o desafiador pr-sal pode ficar por mais algum tempo intocado. 
TATIANA GIANINI


4#3 AGORA FALTA O MAIS DIFCIL
O acordo fechado na OMC  insuficiente para derrubar as barreiras ao comrcio e impedir os tratados bilaterais.

     O comrcio mundial cresce em passo lento h dois anos, refletindo a queda no ritmo da economia global e o aumento do protecionismo. Assim, o acordo firmado em Bali, na Indonsia, no ltimo dia 7, foi motivo de celebrao. Pela primeira vez desde a criao da Organizao Mundial do Comrcio (OMC), em 1995, os pases associados (que hoje chegam a 160) alcanaram um entendimento. Decidiram simplificar e padronizar as exigncias alfandegrias, alm de cumprir cotas de importao. Essas medidas, quando implementadas, podero proporcionar ganhos estimados entre 400 bilhes e 1 trilho de dlares ao ano. O acordo significou um voto de confiana no brasileiro Roberto Azevedo, que assumiu em setembro a direo da OMC. Ele foi um dos artfices da estratgia de reduzir a ambio nas metas para Bali, para, a partir de um entendimento inicial, avanar em temas de maior impacto, como a abertura de mercados, a diminuio de tarifas e a reduo de subsdios. Para o Brasil, os ganhos esperados vo se dar no aguardado respeito s cotas de exportao e nas vendas para os pases em desenvolvimento. No raro, essas economias impem restries alfandegrias  entrada de mercadorias sem que, para isso, apresentem razes claras e objetivas. 
     O acordo de Bali, festejado pelo governo, no entusiasmou o setor privado. A lentido da OMC contrasta com o avano na formao de blocos regionais de livre-comrcio. Dois deles se destacam, ambos envolvendo a maior  economia do mundo, a americana, e sem a presena do Brasil. Horas depois do desfecho na Indonsia, ministros de doze pases, entre os quais o Japo, o Chile e o Mxico, alm dos Estados Unidos, voaram para Singapura para acertar os ltimos pontos da criao do Tratado Trans-Pacfico. Nesta semana, ser a vez de os americanos se reunirem com representantes da Unio Europeia, para a discusso de outra zona comercial. "Como o consenso  difcil na OMC, os pases preferem negociar em grupos menores", diz o embaixador Rubens Ricupero, diretor da Faculdade de Economia da Faap. Para a indstria e o agronegcio, trata-se de uma ameaa. "Os produtos brasileiros perdero mercado, pois sero preteridos no direito a cotas para exportao ou pagaro tarifas mais altas em detrimento de quem estiver nos blocos", diz Marcos Jank, diretor da empresa BRF. H o risco de os investimentos estrangeiros serem afetados, porque o pas ficar de fora das grandes cadeias globais de suprimento dos insumos industriais. "O Brasil precisa de acordos com pases que tenham tecnologia e que estejam integrados s maiores cadeias globais", afirma Mrio Marconini, diretor de negociaes internacionais da Fiesp. 
     O Brasil tenta destravar as discusses do Mercosul com a Unio Europeia, iniciadas em 2001. Nos ltimos anos, acertou acordos de livre-comrcio apenas com Israel, Egito e Palestina. Para um pas que  a stima maior economia do mundo, mas s a 22 em exportaes, so sinais de um futuro comercial pouco auspicioso. 
MARCELO SAKATE


